Política e Justiça sendo arrastadas para a lama: em quem confiar?


Por Valentim Peixoto de Albuquerque

Vivemos tempos em que duas palavras fundamentais para qualquer democracia — política e Justiça — aparecem, com frequência, envolvidas em disputas, acusações, desconfianças e conflitos que ultrapassam os limites das instituições e chegam diretamente à sociedade.

E diante de tudo isso surge uma pergunta que parece simples, mas é cada vez mais difícil de responder: em quem confiar?

A política deveria ser o espaço destinado ao debate de ideias, à construção de soluções e à representação dos interesses da população. A Justiça, por sua vez, deveria ser reconhecida pela imparcialidade, pelo respeito às leis e pela garantia de direitos.

Quando essas instituições passam a ser vistas pela população como parte permanente de uma disputa política, algo muito importante se perde: a confiança.

Não se trata de defender políticos, partidos, governos ou autoridades. Tampouco de atacar instituições. Trata-se de reconhecer que uma democracia saudável depende de cidadãos capazes de acreditar que as regras valem para todos e que decisões públicas são tomadas com base em princípios, leis e fatos.

A sociedade brasileira está cansada de assistir a acusações de todos os lados. Cada grupo apresenta sua própria versão dos acontecimentos. Uns enxergam perseguição onde outros enxergam cumprimento da lei. Uns defendem determinada decisão; outros consideram que houve excesso. E, no meio desse confronto, muitas vezes o cidadão comum fica sem saber onde termina o fato e começa a narrativa política.

É justamente aí que mora o perigo.

Quando deixamos de buscar informações em fontes confiáveis e passamos a acreditar apenas naquilo que confirma aquilo que já pensamos, deixamos de ser cidadãos informados para nos tornarmos espectadores de uma guerra de versões.

Política não deveria ser torcida organizada.

Justiça não deveria ser instrumento de vingança.

E a sociedade não deveria ser obrigada a escolher entre acreditar cegamente em uma autoridade ou desconfiar automaticamente de todas elas.

Instituições públicas precisam ser cobradas. Políticos precisam prestar contas. Magistrados, autoridades e agentes públicos também devem estar submetidos às regras, à transparência e aos mecanismos de controle previstos na democracia.

Mas cobrança não é sinônimo de condenação antecipada.

Da mesma forma, respeito às instituições não significa abrir mão do direito de questionar decisões.

Talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente "em quem confiar?", mas "em que confiar?"

Confiar em fatos comprováveis.
Confiar na lei.
Confiar no direito de defesa.
Confiar na liberdade de imprensa.
Confiar na transparência.
Confiar na fiscalização das instituições.
E, principalmente, confiar na capacidade da sociedade de analisar os acontecimentos sem transformar política em religião ou adversário em inimigo.

Nenhuma instituição está acima da sociedade. Nenhum político deveria estar acima da lei. E nenhum cidadão deveria abrir mão do senso crítico em nome de uma paixão política.

A democracia não se fortalece quando todos pensam da mesma maneira. Ela se fortalece quando pessoas que pensam diferente conseguem conviver, debater e exigir respostas sem destruir a credibilidade das instituições das quais todos dependemos.

Se política e Justiça estão sendo arrastadas para a lama, é responsabilidade de todos evitar que a lama também seja levada para dentro da consciência de cada cidadão.

No final, a maior proteção de uma sociedade não é confiar cegamente em pessoas. É construir instituições transparentes, exigir responsabilidade de quem exerce poder e nunca abandonar o direito de questionar, investigar e buscar a verdade.

Porque, quando a confiança desaparece completamente, não é apenas um político ou um tribunal que perde.

É a própria democracia que começa a pagar a conta.